No passado dia 14 de Abril, a JSD Odivelas esteve reunida
com Samer Hamati - um jovem Sírio, a frequentar o doutoramento de Economia no nosso país, e que estava no seu país na altura do início da guerra civil - que ainda decorre sem resolução aparente. Foi com grande disponibilidade do Samer - a
quem voltamos a agradecer - que pudemos conversar, fazer perguntas e discutir
História, sem tabus, e perceber a sua visão e experiência vivida neste conflito. Conversámos também acerca da visão que existe fora da Europa acerca dos jovens Europeus.
No final, para que percebam um pouco
mais aquilo que foi esta reunião, o Samer concordou em responder a 6 questões sobre estes temas, respostas que
depois de traduzidas, partilhamos convosco aqui:
“O caso da Síria é importante por várias razões.
Em primeiro lugar, a Síria tem uma posição geopolítica privilegiada, no coração do médio oriente, sendo a intersecção do mundo antigo e a ponta mais este do mar Mediterrâneo. Foi o palco
de guerras entre várias facções internacionais, a salientar os conflitos entre os
Estados Unidos e a Rússia, e o conflito Irão - Arábia Saudita e os outros países do golfo Pérsico. Mas existem ainda razões que não podem ser separadas da situação actual, como o
conflito Israel - mundo Árabe, os conflitos Palestino - Palestino, Libanês - Libanês, a questão dos curdos e a
própria riqueza de
poços de petróleo na região.
A Síria é também um exemplo do
falhanço da comunidade
internacional, que é incapaz de parar
o derrame de sangue na região. Isto acontece porque internacionalmente existe a crença generalizada de
que o conflito ainda não deflagrou, assistindo de fora a tudo, enquanto decide o
que fazer. Também falha em perceber as consequências que o longo período de guerra na Síria vai trazer no futuro.”
2. Ainda em relação ao exemplo Sírio, e partilhando um pouco da tua experiência, qual é a importância do valor “liberdade”?
“Nos países emergentes, não existe um contrato social moderno. Existem sim,
trocas entre os regimes políticos e os cidadãos, o que inclui a cedência de direitos políticos por parte dos cidadãos - direitos que incluem a liberdade - por modo de obter
os meios básicos de subsistência - comida,
energia, educação grátis e
estabelecimentos de saúde. Infelizmente muitas pessoas nesses países estão habituadas a
estas trocas, de tal modo que quando uma revolução começa, a maioria ataca-a agressivamente porque esta ameaça a forma como as
pessoas se habituaram a viver.
Pelas condições económicas deficientes que os países emergentes enfrentam, a liberdade torna-se num
direito não-essencial ao
bem-estar, e é posto no final das prioridades das pessoas.
No entanto, e em minha opinião, a liberdade está na base de
qualquer progresso das nações. As pessoas não podem inovar sem serem livres em pensamento e acções. Não obstante, a
liberdade política é somente uma suficiência e não uma necessidade condicionante do desenvolvimento.
Amartya Sen, um economista e vencedor do prémio Nobel, disse que o desenvolvimento é um ramo da liberdade. Liberdade não significa
apenas a habilidade de expressarmos a nossa opinião livremente, mas de estarmos livres de doenças e livres do
desconhecimento. Eu acredito que a maioria dos conflitos internacionais são devido ao
sentimento que as pessoas têm de que não são livres, e também devido aos ditadores quererem distrair o povo de procurar
a liberdade forçando-o a conflitos entre si e com outros.”
3. Consideras que a juventude da Europa
devia estar mais atenta à realidade do resto do mundo, e procurar envolver-se em
intervenções que fizessem a diferença de alguma maneira?
Do que sei, entre os anos 60 e 70 houve um forte
movimento estudantil na Europa, e nessa altura a juventude foi o motor da mudança Europeia. A
Juventude deveria estar mais preocupada com os acontecimentos sociais, económicos, políticos e a segurança por todo o
mundo, e deveriam perceber que são parte essencial de um sistema internacional cheio de
crises e conflitos, e que por si podem participar efectivamente na criação de um planeta
mais seguro para viver.”
4. Tendo em conta que “herdámos” este conflito da Síria, como é que o podemos resolver?
“A situação Síria é, como referi
antes, um dos mais sofisticados e complicados conflitos da história moderna. É um conjunto de linhas entrelaçadas que não conseguimos separar, e não conseguimos queimar uma delas sem afectar as outras.
Por isso a solução não é clara. O que podemos procurar é insistir fortemente para que as duas forças internacionais
- EUA e Rússia - convençam os outros
parceiros e aliados, que nenhum dos lados do conflito pode derrotar totalmente o
outro, e obrigá-los a sentarem-se na mesma mesa para dialogar. Além disso, ainda
antes do diálogo, pedir aos países que apoiam as diferentes facções, para parar de
lhes fornecer armamento.
Por outro lado, muitos Europeus
acham que uma intervenção militar por parte dos EUA é a melhor resposta
que a comunidade internacional pode dar. Isto é um erro grave.
Primeiro que tudo, os EUA não têm especial interesse com a democracia na Síria, e sempre
apoiou outros regimes ditatoriais na região. Também não se importam com a situação humanitária local. Os únicos interesses americanos são a aliada Israel e o petróleo do golfo Pérsico. Por fim, não acredito que a democracia no país possa ser
instaurada pelos Tanques de Guerra das tropas estrangeiras.”
5. Achas que a paz mundial é uma
realidade pela qual devemos lutar, ou será sempre uma utopia?
“A História diz-nos que não existe paz
globalmente absoluta. Os conflitos fazem parte da nossa condição de Homens.
Raramente encontramos uma família onde não existam conflitos entre pelo menos dois dos membros.
Existem várias razões psicológicas e sociais
para o conflito. Portanto, nós não nos deveríamos focar num objectivo irrealista. Se o fizéssemos, estaríamos a gastar os
nossos recursos ineficazmente. Nós podemos trabalhar como a Cruz Vermelha - não podemos
prevenir a guerra, mas podemos fazê-la mais moral. Existem tipos de conflitos que nós podemos evitar.
Maioria dos estudantes de Economia sabem que a escassez é a principal variável económica do mundo, e podemos baixar as consequências recorrentes
desta, trabalhando em cooperação internacional - e este processo aumentaria os ganhos de
todas as nações. O 8º dos objectivos
de desenvolvimento do milénio da ONU que fala de assistência técnica e financeira aos países emergentes, também suporta a solidariedade internacional contribuindo para
a paz global.”
6. Apesar do pouco tempo que partilhámos, pelo que pudeste conviver desta reunião, qual é a tua opinião deste grupo de juventude partidária?
“Eu passei 5 meses
na Universidade do Minho em Braga, e 3 meses na Universidade de Coimbra e
fiquei frustrado por me aperceber o quão fracos são os movimentos de jovens que conheci. A maioria deles não estão envolvidos em áreas de interesse
público. Eles
limitam os seus interesses a festas, copos e saídas. Eu sei que o movimento estudantil europeu fez muito
durante os anos 60 e 70 quando condicionavam os governos a mudar as políticas e direcções. Os estudantes
tinham voz. Não sei bem porquê, mas acredito que seja devido ao demasiado bem estar que
os países Europeus atingiram, e que por isso não haja a
necessidade de lutar ou a vontade sequer de se aperceberem das diferenças económicas de outros
países.
Perguntas de co-autoria de Guilherme Duarte e Bruno
Duarte, respostas dadas por Samer Hamati.
As ideias, opiniões, e visão descritas nas respostas não correspondem
necessariamente à visão da JSD
Odivelas, e apenas representam as ideias do seu autor.

